Vem o release, sai nos meios de comunicação, por mais incrível que seja. Pode ser o boimate, o famoso primeiro de abril de uma revista científica que foi aceito como verdade por aqui (tratava-se de um fantasioso cruzamento de bois com tomates, que permitiria produzir hambúrguer com molho de maneira muito econômica). Pode ser a Bomba Étnica, que ao explodir mataria apenas palestinos e pouparia os israelenses (talvez fosse dotada de explosivos inteligentes, que escaneariam a carteira de identidade ou o passaporte do cidadão antes de decidir se iriam ou não atingi-lo). Pode ser a migração em massa de dez milhões de japoneses para o Brasil (e como viriam - a nado?).
Tudo isso saiu na imprensa como se fosse notícia. E as peneiras do que é ou não verossímil continuam furadas. Há dias, noticiou-se amplamente que o prefeito de São Bernardo, SP, Luiz Marinho, em sua visita à Suécia a convite da Saab, voou num caça supersônico Gripen NG, um dos que podem ser comprados pela FAB. Havia até foto de Marinho, compenetrado, com roupa antigravidade. Super high-tech.
É curioso: uma das características mais discutidas do equipamento sueco é que ainda está em projeto. Dizem seus partidários que, ao participar do desenvolvimento do projeto, o Brasil terá uma chance única de absorver tecnologia, o que seria impossível se adquirisse um avião já pronto, como seus concorrentes Rafale e F-18. Dizem seus adversários que, por não estar pronto, não é possível avaliar corretamente seu custo e seu desempenho. Pois bem: se o avião ainda está em projeto, como é que o prefeito de São Bernardo voou nele?De acordo com as informações da Saab, há um Gripen NG em testes de voo - ou seja, essa história de participação no desenvolvimento do projeto talvez seja uma participaçãozinha, a do finzinho da construção.
Mas nenhum jornalista teve a curiosidade de fazer-lhe essa pergunta.
Uma outra dúvida que ninguém mencionou em nossos meios de comunicação: de acordo com as informações da Saab, o caça Gripen NG é monoposto, ou seja, só tem lugar para o piloto. Se não há lugar para outra pessoa, como terá sido acomodado o prefeito supersônico?
Escondidinho, escondidinho
Não procure esta notícia nos meios de comunicação convencionais: foi ignorada. Quem a passou a este Observatório foi um médico do ABC paulista, Nelson Nisenbaum: o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal abriu processo ético-profissional contra 18 dos médicos que atenderam o sargento Laci Marinho de Araújo no Hospital Geral de Brasília, entre 2006 e 2008. Laci é homossexual e mantém relação estável com outro militar, o que já lhe rendeu muitos aborrecimentos nas Forças Armadas.
De acordo com o parecer, aprovado por unanimidade pelo Conselho, os médicos contribuíram "em maior ou menor gravame para o clima de tortura psicológica que viveu na época e talvez ainda viva hoje". Algumas das infrações ético-profissionais apontadas no parecer: "autorizar a prisão arbitrária de ser humano doente, em gozo de licença médica concedida por outro médico" e "internar uma pessoa compulsoriamente".
Os profissionais dos meios de comunicação normalmente têm comportamento menos preconceituoso que o da média da população. Mas os meios de comunicação, quando tratam de homossexualismo, o fazem com grande receio. De preferência, jogam o assunto de volta para o armário.